quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Porque dizer "estamos grávidos" não é só uma frase e um book de fotos em rede social.

  Lembro-me de quando pequeno no interior onde passei parte da minha infância, junto aos meus primos, numa casa enorme de madeira, casa essa de meu avô materno (não viveu com minha avó, mais sua esposa me tratava como neto e considerava minha mãe como filha). Era uma correria, uma gritaria, o assoalho da casa de madeira, potencializava o som. Ao lado um jardim onde sua esposa cativava com muito cartinho, a frente da casa um banco de madeira, nos fundos o poço e bem atras o banheiro. No outro lado da casa tinha uma parte mais alagada pois era onde tomávamos banho, ali sempre encontrávamos minhocas para brincar, e o chão frio e um limo gostoso de pisar. Meu avô, magro, as costelas apareciam todas, o cigarro o acompanhava junto com a tosse e sua risada que começava alta e terminava baixinha junto com o folego, mais também por vezes bravo, afinal 5 filhos legítimos e mais minha mãe e tantos netos com panelas batendo, sujando as paredes, correndo, gritando, era de enlouquecer.
   

      As brincadeiras seguiam dia e noite, sempre tinha aquele que não queria tomar banho, aquele que queria comer mais ou aquele que não queria mais comer ou mesmo o que nem queria comer. E as mães brigando, os manhosos, os brigões, os atentados. Eu fui crescendo e olhando tudo aquilo. Meu avô tinha preferencia por um de nossos primos, todos sabiam, Mais era um homem bom, construía barcos feitos de miriti e lembro de ter me dado um muito bonito.
    Minha família mesmo eram apenas: Eu, minha mãe, meu tio-avô e minha tia-avó. Minha avó morreu quando foi da a luz ao irmão da minha mãe, a criança também morreu. Eu sempre achava muito legal ter gente pra conversar, brincar e até brigar. Minha mãe morava na capital então aquelas cenas só se repetiam nas férias. Eu era na maioria do tempo trancafiado em casa, pois minha mãe tinha que trabalhar. Quem ficava em casa era meu tio-avô se eu sou bipolar, vocês não conheceram meu tio-avô, era "quadripolar", risos.
      Em 1995 perdi minha tia-avó (pra mim ela era como mãe), no enterro dela foi a primeira vez na vida que vi seu irmão chorar, anos atras perdi meu tio-avô, esses dois me contaram e fizeram eu viver muita história.


 Eu sei o quanto é difícil criar um filho num país como este e numa crise como estamos, mais a perguntar é quando foi que este país não esteve em crise?!

Até o momento tenho apenas uma filha, que é benção de Deus na minha vida, o meu maior desejo é ter mais dois filhos. Talvez não veja cenas repetidas como vi na minha infância por meus filhos. Mais aguardo com meus netos. Nas conversas de família, minhas tias começam a falar do passado e da personalidade de meu avô e de tantos outros. A verdade que o encontro com elas é um riso só, eu entendo porque gosto de tirar sarro ou "encarnar" nos outros como dizem por aqui. Elas são impagáveis, dias atras minha tia contava que no dia de finados onde estão todos em silencio no cemitério da cidade acendendo suas velas. Elas estão as gargalhadas, alguns filhos reprovam outros entram na roda e também contam histórias. E é disso que falo, mesmo que não esteja presente num futuro, gostaria de saber que contariam histórias sobre mim, histórias onde tirei do serio a mãe deles, onde "surrei" um dos filhos ou onde um dos filhos aprontou comigo. De saber que eles lembrarão que estive presente nas alegrias e tristezas e fui colaborador de seu crescimento como pessoa, cidadão.

Eu seria tanto aos meus futuros filhos ou netos exatamente como a foto ao lado. Brincar, correr (se ainda puder), mais sem duvida carregar, sem duvida trocar as fraldas, alimentar, passear, pegar sol, ensinar, levar ao médico, vê-los dormir, acordar. Alguém pode perguntar "mais você não fez isso com sua filha quando ela era mais novinha?" Em parte sim, em parte não, em parte não sei. Porque não lembro e dói muito não lembrar e dói muito mais não ter feito. Dilacerante é saber que estava deitado em depressão enquanto minha filha queria sair, queria brincar, enquanto olhava pra mim expressando no olhar: "vem brincar comigo papai?!" O choro é inevitável.

Eu não lembro de jogá-la pra cima, não lembro de rodar com ela, de beijá-la sempre, de da de comer na boca, do aviãozinho, de da banho, acredito que talvez não lembre porque não tenha feito mesmo, por imaturidade e a outra parte por causa da doença, criando assim uma insegurança a pessoa que teve que fazer tudo sozinha (minha esposa), assim tendo medo de outros filhos e a história se repetir. Mais ai esta o engano, eu quero porque preciso e quero viver isto. Em minhas leituras, descobri que pessoas que já tiveram surtos (também tive ataque de panico), vão esquecendo das coisas e tem momentos da minha vida que nada lembro. O dia do meu casamento, minha filha dos seus 4 anos para trás e outras histórias que só sei porque minha própria esposa conta então vou imaginando a cena.

Mesmo que sejam com meus netos, mais não serão meus filhos. Não serão educados nos meus moldes, minha pequena menina, também não foi educada por mim, devido o que me acometeu e minha esposa estudando e trabalhando, minha mãe teve que educa-la ao seu modo. E hoje encontro dificuldades.Tenho orado a Deus, para ter mais filhos, Ele sabe o desejo do meu coração. Quero viver tudo que não vivi e não fiz com minha pequena menina. Percebo que as vezes nos afeiçoamos a sobrinhos, filhos de vizinhos e parece que ocupam o desejo de ter filhos. Aquela máxima "criança é muito bonitinha mais na casa dela!"



Adoraria ter pequenos correndo pela casa, afinal "criança alegra a casa" é o que escutamos por ai. Adoção é uma alternativa, sim é mais para mim é um tiro no escuro. As vezes você adota e eles são bençãos pra você, em outros infelizmente muita dor de cabeça.

Gostaria de curtir uma gestação, de fato dizer "estamos grávidos" sentir mexer na barriga e ansiar por sua vinda ao mundo, se tiver coragem, de estar na sala de cirurgia, de mais tarde sentir apertar meu dedo com sua pequena mão, de a noite ir olhar se está respirando. Sim de ficar nervoso quando chorar e não saber o que é, mais isso é a paternidade. Queria ter a maturidade de enfrentar e querer tudo isso quando tive minha pequena menina. Porque dizer "estamos grávidos" não é só uma frase e um book de fotos em rede social.

Que Deus escute sempre minhas orações e não feche a madre de quem está comigo. Para que se cumpre o desejo do meu coração segundo a vontade de Deus para minha vida. Pois o dia que estiver partindo e a gritaria estiver solta em casa. E repreenderem dizendo: "Respeitem o avô de vocês"
Eu direi: "Deixem correr, fazer barulho, gritar, sorrir e brincar, eles estão antecipando a visão do céu para mim".